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Projeto RECA: onde a Organização, a Floresta e a Dignidade se encontram.

1. Uma História de Resistência, União e Conquistas

A Associação dos Pequenos Agrossilvicultores do Projeto RECA (Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado), surgiu de uma necessidade urgente na região da Ponta do Abunã (na época, área de litígio entre os estados do Acre e Rondônia), para trabalhar a terra com sabedoria, respeitando e valorizando os conhecimentos tradicionais, as novas tecnologias, almejando a dignidade e a prosperidade das famílias.

Nesse contexto, no final da década de 80, as famílias de pequenos produtores rurais, migrantes de várias partes do País, em conjunto com os ex-seringueiros e agricultores familiares da Ponta do Abunã (região entre os estados do Acre, Rondônia e Amazonas), foram assentadas e regularizadas suas terras pelo INCRA nesse território. E como a maioria não conheciam a região, as condições edafoclimáticas e as doenças tropicais como a malária e a hepatite, tinham que enfrentar o fracasso das monoculturas tradicionais (café, cacau e a lavoura branca) e a pressão para desmatar a floresta para criar gado.

Mesmo com essas adversidades, esses produtores e ex-seringueiros não desistiram e acreditavam que era possível trabalhar uma agricultura diferenciada naquela região, utilizando espécies nativas da Amazônia, consorciadas com as culturas alimentares (mandioca, milho, arroz e feijão) e combinada com as criações, proporcionando segurança alimentar, renda, dignidade e prosperidade às famílias. Contudo, para a concretização dessa proposta, contaram com o apoio da Igreja Católica, na pessoa do Bispo Dom Moacir Grechi (Diocese de Rio Branco), onde foram guiados por uma filosofia de solidariedade — inspirada pelas comunidades eclesiais de base — eles então, decidiram imitar a floresta em vez de derrubá-la.

O RECA é muito mais do que um modelo agrícola bem-sucedido, é um manifesto de sobrevivência e dignidade no coração da Amazônia, representando a vitória do conhecimento tradicional aliado à inovação tecnológica. Ademais, não é apenas uma associação ou cooperativa de produtores rurais, é um modelo singular de vida e trabalho que provou ser possível unir a organização, o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental.

Ao longo desses 37 anos de caminhada e conquistas, o RECA tem sido protagonista na proposta do ecodesenvolvimento com comprovação real de sustentabilidade socioambiental e de economia solidária. Seu sucesso baseia-se na concepção integrada de desenvolvimento e educação popular. Essa experiência única, contou com o apoio da Pastoral da Terra, que tinha em seus quadros, educadores populares e agentes pastorais com formação multidisciplinar, que estimularam intercâmbios de experiências e aprendizados entre migrantes do Sul e ex-seringueiros do Norte.

Assumiram juntos o desafio de associar-se à floresta, à agricultura familiar, o cultivo de frutíferas, essências florestais, hortaliças e criação de pequenos e médios animais, que somado à vivência de cada família, havia um trabalho educativo e pastoral, onde padres, freiras, pastores, sociólogos, engenheiros agrônomos e florestais, nutricionistas e ativistas de uma igreja comprometida na luta contra a exclusão. Era a educação popular à serviço da formação dos excluídos para o processo de inclusão social. Juntos, eles e elas, criaram elos de solidariedade para enfrentar as dificuldades e lutar por direitos ao acesso à terra e poder tirar dela, o seu sustento.

A Associação e a Cooperativa do RECA criaram um jeito novo de viver e produzir, tornando-se referência em alternativa de desenvolvimento sustentável na Amazônia. É uma iniciativa produtiva que organiza os produtores familiares e extrativistas em torno de uma proposta agroflorestal, construída com forte base social, econômica e ecológica, trabalhando diferentes cadeias produtivas agroflorestais e extrativistas com profissionalismo e inovação.

2. Organização Social: a Força do Coletivo

O coração do RECA reside em sua estrutura social. Diferente do modelo de agricultura egocêntrica, o projeto baseia-se no associativismo e cooperativismo autêntico. No âmbito da solidariedade e gestão, o RECA reúne centenas de famílias, organizadas em 09 grupos locais, o que permite uma gestão horizontal e democrática.

Essa organização sempre defendeu a permanência do homem e da mulher no meio rural, e tem buscado, para que esse espaço não seja apenas de trabalho, mas de celebração da vida em sua plenitude. Nesse contexto, o RECA promoveu a sucessão familiar, garantindo aos jovens um futuro na terra, além de fortalecer o papel das mulheres na gestão e produção. Ademais, ao oferecer infraestrutura, agregação de valor e mercado aos seus produtos, o RECA tem valorizado suas áreas, evitando o êxodo rural das famílias e a venda das terras ao latifúndio da região.

Um aspecto relevante da organização, tem sido a valorização do conhecimento tradicional, pois ao longo de sua trajetória por quase quatro décadas, há uma troca constante entre o saber tradicional, baseado na experiência do agricultor (a), com as inovações tecnológicas, fortalecendo a identidade comunitária do RECA.

Por fim, ao longo desses 37 anos de trajetória, o Projeto RECA, tem se pautado nos princípios da responsabilidade social, econômica e ambiental, valorizando a cooperação, a solidariedade, o conhecimento, as competências, habilidades e a ajuda mútua entre as pessoas e os grupos que o compõe, sempre buscando compatibilizar a produção sustentável, com a melhoria de renda e a qualidade de vida das famílias.

3. Aspecto Econômico: a Rentabilidade com a Bioeconomia

O grande troféu econômico do RECA foi provar que a Bioeconomia é viável em larga escala.Economicamente, o projeto quebrou o paradigma de que a preservação é inimiga do lucro. Ao adotar os Sistemas Agroflorestais (SAF’s), o RECA diversificou a sua renda. Onde antes havia apenas pasto ou capoeira improdutiva, hoje, colhe-se cupuaçu, pupunha, castanha, açaí, andiroba, dentre outros produtos. E, buscando a agregação de valor aos produtos e a geração de trabalho e renda às famílias de Nova Califórnia, a Cooperativa não vende apenas a matéria-prima (como o cupuaçu, a pupunha e a andiroba), ela processa esses produtos em agroindústrias próprias. Hoje, o RECA possui três agroindústrias em funcionamento, a saber: a agroindústria de polpas; a agroindústria de palmito; e a agroindústria de óleos vegetais. Conta ainda, com um Centro Comercial para a venda de seus produtos em nível local, regional e nacional.

Como forma de garantir a segurança financeira, a diversificação da produção por meio dos SAF’s, possibilitou ao agricultor (a) obter renda o ano todo, protegendo-o das flutuações de preço de uma “monocultura de mercado”.

Nesse contexto, o RECA tem buscado de forma eficiente, os mercados institucional, justo e privado, para a comercialização de seus produtos (polpa de cupuaçu, manteiga de cupuaçu, palmito de pupunha, sementes certificadas de pupunheira, óleos de castanha do brasil e andiroba, polpas de açaí, araçá-boi, acerola, maracujá e mel). Além dos produtos artesanais como licores, doces, geleias, farinhas, fitoterápicos e artesanato, que são comercializados no Centro Comercial.

Atualmente, fornece insumos para empresas de grande porte do ramo cosmético (como a Natura) e para o mercado alimentício nacional, inserindo o pequeno produtor em cadeias globais de valor, consolidando o RECA como uma organização que pratica o mercado justo, solidário e sustentável.

4. Aspecto Ambiental: o Papel Central dos SAF’s na Restauração Produtiva

Os Sistemas Agroflorestais (SAF’s) adotado pelo RECA, tornou-se a espinha dorsal do Projeto. Em vez da introdução de pastagens ou cultivo de monocultura, os agricultores passaram a cultivar cupuaçu, pupunha, castanha e outras espécies frutíferas e florestais de forma consorciada.

Os sistemas consorciados do RECA têm viabilizado o alcance dos seguintes resultados estratégicos: i) Recuperação de Áreas Degradadas: o RECA por meio do reflorestamento, vem recuperando áreas degradadas e transformando pastagens antigas ou capoeiras improdutivas, em florestas produtivas, imitando o ecossistema natural; ii) Serviços Ecossistêmicos: esses sistemas, ajudam no sequestro de carbono, na manutenção do ciclo das águas, na proteção do solo contra a erosão, na ciclagem dos nutrientes e na preservação da biodiversidade local, já que os SAF’s servem de corredores ecológicos para a fauna; iii) Redução de Insumos e Agroquímicos: a lógica da consorciação de espécies permite que a própria matéria orgânica da floresta nutra o solo, reduzindo a necessidade de fertilizantes externos. Ademais, possibilita o controle natural das pragas e doenças. Mesmo assim, o RECA vem produzindo seus insumos e fazendo a adubação de reposição das áreas, com o uso de biofertilizantes e composto orgânico. E o controle das pragas, com o uso de inseticidas naturais (bioinseticidas); iv) Produção Sustentável: os SAF’s além de gerar os serviços ecossistêmicos na região, possibilita a diversificação da produção, proporcionando ao agricultor (a) uma renda estável o ano todo, protegendo-o das flutuações de mercado.

Nesse processo de reflorestamento das áreas, o RECA possui hoje, aproximadamente 2.000 hectares de SAF’s implantados, sob os mais diversos desenhos e composições, contando com áreas de floresta nativa (Reserva Legal ou APP) em cada Unidade Produtiva.

Nos arranjos dos SAF’s, são trabalhadas mais de 20 espécies diferentes de frutíferas, culturas perenes, madeireiras e medicinais. E dentre os produtos da sociobiodiversidade mais importantes do RECA, estão as cadeias de valor de polpas de frutas regionais, os óleos vegetais e o palmito de pupunha.

5. Parcerias Estratégicas e Reconhecimento

Ninguém caminha sozinho na Amazônia. O legado do RECA foi construído através de parcerias sólidas com instituições como a Embrapa; o BNDES; FNMA/MMA; Fundação Banco do Brasil; a Natura; PREAL-PDA/MMA; Caminhar-PDA/MMA; Produzir-Petrobras; Fontes Novas-Petrobrás; Projeto de Reposição Florestal-Eletrobrás; Programa Nacional de Habitação Rural-Caixa Econômica Federal; “Projeto Concretizar”, financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES; FUNBIO; além da colaboração fundamental de Instituições de Cooperação Internacional como a CORDAID (antiga CEBEMO) da Holanda; o CCFD da França; e o MLAL da Itália.

Essas colaborações permitiram o aporte inicial do Projeto, as inovações tecnológicas e a abertura de mercados que hoje levam os sabores e aromas da floresta para todo o Brasil e para o exterior.

A maior conquista do RECA não são os prêmios nacionais e internacionais (como o da ONU) obtidos, mas o fato de os filhos e os netos desses agricultores estarem estudando e retornando para a associação/cooperativa como técnicos, engenheiros agrônomos e florestais, nutricionistas, sociólogos e gestores.

6. Conclusão:

A maior vitória do Projeto RECA, após quase quatro décadas de caminhada, é a prova viva de que a Bioeconomia não é um conceito abstrato, mas uma prática viável e factível.

O RECA tem nos ensinado que a solução para a Amazônia passa, obrigatoriamente, pelo fortalecimento das comunidades locais e pelo respeito aos ciclos da natureza.

Nesse cenário de crise climática, o modelo do RECA deixa de ser uma iniciativa local para se tornar um paradigma global de como devemos nos relacionar com as florestas tropicais.

A mensagem é clara: a Amazônia não precisa ser “conquistada”, ela precisa ser compreendida e integrada de forma justa e sustentável.

7. Referências Bibliográficas Consultadas

Para a fundamentação deste artigo, recomendam-se as seguintes fontes que detalham a trajetória do projeto:

  1. ALMEIDA, E. P. O Projeto RECA: uma alternativa de desenvolvimento sustentável na Amazônia. Dissertação de Mestrado.
  2. CAMPOS, A. C. Sistemas Agroflorestais e o fortalecimento do campesinato: o caso do RECA. Editora Acadêmica, 2018.
  3. MUNIZ, P. S. B. “Análise socioeconômica do Projeto de Reflorestamento, Econômico, Consorciado e Adensado (RECA) e a comparação de renda familiar dos sócios e não sócios do Projeto na região de Nova Califórnia/RO”. Monografia do Curso de Pós-Graduação em Ecologia e Manejo de Florestas Tropicais/UFAC, 1998.
  4. PROJETO RECA. Relatórios de Sustentabilidade e Histórico Institucional. Disponível em: projetoreca.com.br.
  5. SACHS, I. Caminhos para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: Garamond, 2002. (Referência teórica sobre a integração dos pilares social, econômico e ambiental).

WWF-Brasil.Estudo de Caso: RECA – A floresta produzindo riqueza e vida. Brasília, 2015.

Paulo Sérgio Braña Muniz é Engenheiro Agrônomo - Mestre em Produção Vegetal/UFAC
Pós-graduado em Ecologia e Manejo de Florestas Tropicais e em Fruticultura Tropical/UFAC
Assessor Técnico de Projetos da CDSA S.A

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