Em seis anos, o padrão mais exigente do mundo para carbono florestal de governos certificou 63 milhões de toneladas de CO₂ evitadas. Quase todas vieram de um único país. Neste artigo faremos uma análise do registro público do ART crédito a crédito para entender quem vende, quem compra, por quanto, e o que isso ensina ao Acre.
Floresta em pé como ativo
Durante muito tempo, o mercado de carbono florestal foi dominado por projetos privados: uma fazenda, uma reserva, uma concessão. Esse modelo foi alvo de críticas sobre linhas de base infladas e “vazamento”, quando o desmatamento evitado num lugar simplesmente migra para o vizinho.
O REDD+ jurisdicional inverte a lógica. Quem gera o crédito é o governo de um país ou de um estado inteiro, medindo a redução do desmatamento em todo o território. Se a derrubada cai no conjunto, há crédito. Se sobe em qualquer parte, o resultado é descontado.
O principal padrão para esse tipo de crédito é o TREES, mantido pelo ART (Architecture for REDD+ Transactions) [1], um programa independente sediado na Winrock International. Três selos explicam por que seus créditos estão entre os mais valorizados do mercado:
- Aviação: a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) aceita créditos TREES para a compensação obrigatória das companhias aéreas, o CORSIA. Em 2025, estendeu a aprovação à segunda fase do programa [2].
- Integridade: o padrão foi reconhecido pelo Conselho de Integridade do Mercado Voluntário (ICVCM) como elegível ao selo de alta integridade.
- Liquidez: as vendas registradas até hoje mostram um crédito com demanda real e preço acima da média. Petroleiras, companhias aéreas, tradings e grandes empresas de tecnologia e consultoria já compraram créditos TREES, a valores entre US$ 10 e US$ 25 por tonelada.
Um mercado de dois países
Até outubro de 2026, o ART emitiu 63,2 milhões de créditos TREES [3], cada um equivalente a uma tonelada de CO₂. Só dois governos receberam créditos: Guiana, com 62,0 milhões (98%), e Costa Rica, com 1,2 milhão.
A Guiana foi pioneira. Seus primeiros créditos, referentes a 2016–2020, saíram em dezembro de 2022, e desde então o país recebe uma nova emissão por ano. Ela usa a abordagem para países de alta cobertura florestal e baixo desmatamento (HFLD), que remunera quem mantém a floresta de pé mesmo sem histórico de grande destruição. A Costa Rica só teve sua primeira emissão em junho de 2026, que incluiu os primeiros créditos TREES por remoção de carbono, gerados por reflorestamento.
Os números mostram um crédito com saída. Excluindo o buffer, há 59,5 milhões de créditos negociáveis. Desses, 27,9 milhões (47%) já saíram das contas dos governos em menos de quatro anos: foram vendidos a empresas e intermediários, aposentados ou usados por companhias aéreas. Os 31,6 milhões restantes seguem com Guiana e Costa Rica, boa parte de safras emitidas nos últimos 20 meses. O buffer, de 3,6 milhões, é a reserva que o ART mantém como seguro contra incêndios ou novo desmatamento.
Quem compra e por quanto
O registro mostra para onde vão os créditos. Os preços, porém, só aparecem em anúncios de governos e compradores. Cruzando as duas fontes, surgem três tipos de comprador.
1. A petroleira âncora. Em dezembro de 2022, a americana Hess [4], sócia na exploração de petróleo da Guiana, comprometeu-se a comprar 37,5 milhões de créditos até 2030, por no mínimo US$ 750 milhões. O preço sobe com o tempo: US$ 15 por tonelada para 2016–2020 [5], US$ 20 para 2021–2025 e US$ 25 depois [6]. No registro, a Hess já aposentou 12,5 milhões de créditos e guarda outros 7,5 milhões.
2. As companhias aéreas. Desde 2024, a Guiana vende créditos elegíveis ao CORSIA por meio da trading Mercuria e da bolsa Xpansiv, em leilões organizados pela IATA [7]. O primeiro saiu a US$ 21,70 por tonelada, e as rodadas de 2025 chegaram a US$ 22,55 [8]. Segundo o governo guianês, 19 companhias aéreas já compraram [9]. No registro, a Malaysia Aviation Group aparece usando créditos para cumprir sua meta.
3. As empresas com metas climáticas voluntárias. A Apple comprou 100 mil créditos da Guiana a US$ 15 [10]. A PwC aposentou 440 mil créditos da Costa Rica, comprados por meio da LEAF Coalition a US$ 10 por tonelada [11].
A diferença de preço tem explicação. Créditos que servem ao CORSIA, mercado obrigatório e com oferta escassa, valem mais que os vendidos no mercado voluntário. Somadas todas as vendas, a Guiana informa ter arrecadado US$ 353 milhões desde 2022 [12]. Por compromisso do próprio governo, 15% desse valor vai para comunidades indígenas.
Panorama: TREES diante dos créditos de projetos privados
Desde que o TREES estreou, no fim de 2022, o mercado voluntário de projetos privados encolheu, e o REDD+ de projetos foi o segmento mais afetado. No mesmo período, o TREES ganhou participação e foi vendido com prêmio de preço.
| Ano | Emissões no mercado voluntário, todos os padrões (mi de créditos) | Aposentadorias no mercado voluntário (mi) | Emissões de soluções baseadas na natureza (mi) | Emissões TREES (mi) |
|---|---|---|---|---|
| 2025 | 264 | 173 | 80 | 18,9 |
| 2024 | 291 | 179 | 88 | 7,6 |
| 2023 | 309 | 176 | 123 | 0 |
| 2022 | 354 | 190 | 161 | 35,5 |
Três movimentos se destacam:
- Menos oferta de projetos. As emissões do mercado voluntário caíram 25% entre 2022 e 2025. Nas soluções baseadas na natureza, a queda foi de metade. No maior registrador, a Verra, as emissões de REDD+ de projetos passaram de 61,7 milhões em 2022 para 14,6 milhões em 2024 [14], depois de investigações sobre linhas de base infladas em projetos conhecidos.
- Demanda em queda pelo REDD+ de projetos. As aposentadorias de REDD+ caíram de 45,6 milhões em 2024 para 35,1 milhões em 2025 [15]. Já o TREES respondeu sozinho por cerca de 7% de todas as emissões do mercado voluntário em 2025. A aposentadoria de 12,5 milhões de créditos pela Hess, em maio de 2026, equivaleu a cerca de 12% de todas as aposentadorias do mundo no primeiro semestre [16].
- Preço mais alto. O preço médio do REDD+ de projetos caiu de US$ 14,25 em 2023 para algo entre US$ 7 e US$ 10 em 2025 [14]. O preço médio do mercado secundário, considerando todos os tipos de crédito, ficou em US$ 4,6 em 2025 [13]. Os créditos TREES foram vendidos entre US$ 10 e US$ 25, e os elegíveis ao CORSIA giraram entre US$ 20 e US$ 23 ao longo de 2025.
Em volume, o TREES ainda é uma fatia pequena de um mercado de quase 300 milhões de créditos por ano. Mas é justamente o segmento que cresce enquanto o restante do carbono florestal perde compradores e valor. Os números acima vêm de fontes e métodos distintos e devem ser lidos como ordem de grandeza.
A fila: 25 jurisdições aguardam a primeira emissão
O registro do ART tem 27 governos cadastrados, mas só dois já receberam créditos TREES. Os demais estão em diferentes etapas do processo: nota conceitual, documento de registro, monitoramento e verificação independente. Na fila aparecem países como Gana, Equador, Nepal, Vietnã e Etiópia, além de seis estados brasileiros: Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Tocantins [17].
Lá fora, é comum que governos fechem acordos de compra antes da emissão, com pagamento condicionado à verificação dos resultados. No Brasil, esse modelo esbarra na Lei nº 15.042/2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), proíbe a venda antecipada de créditos de programas jurisdicionais (art. 43, § 6º) [18]. Os acordos já anunciados mostram como o tema ainda gera disputa:
- Pará: acordo de 2024 com a LEAF Coalition para até 12 milhões de créditos de 2023 a 2026, a US$ 15 por tonelada, ou até US$ 180 milhões [19]. Em 2025, o Ministério Público Federal recomendou a suspensão da certificação e da venda [20], por entender que preço e volume fixados antes da emissão configuram venda antecipada. O estado e a LEAF sustentam que a entrega e o pagamento só ocorrem após a verificação.
- Tocantins: contrato de dez anos com a Mercuria, assinado em 2023, antes da lei. Os volumes divulgados variam de 50 milhões de créditos [21] a 250 milhões [22]. Os documentos de 2020 a 2024 estão publicados no registro e em análise.
- Gana, Equador e Nepal: fora do Brasil, contratos com a LEAF a partir de US$ 10 por tonelada, de US$ 30 milhões (Equador) [23] a US$ 55 milhões (Nepal) [24].
O tempo até o primeiro crédito é longo. A Costa Rica assinou com a LEAF em 2023 e só recebeu créditos em junho de 2026. Gana, que assinou no mesmo dia, ainda espera.
O que isso significa para o Acre
O Acre está entre os pioneiros do REDD+ jurisdicional no mundo. Em 2010, criou o Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA) e, dentro dele, o Programa ISA Carbono, que recebeu pagamentos por resultados do programa REM, financiado por Alemanha e Reino Unido. O estado também tem créditos próprios, o Acre Carbon Standard (ACS): mais de 100 milhões de créditos das safras 2005 a 2015 [25], registrados na plataforma Markit e geridos pela CDSA. No ART, já submeteu a nota conceitual, o documento de registro (TRD) e o primeiro relatório de monitoramento (TMR), referente ao ano civil de 2023. O relatório está agora em validação e verificação independente pela S&A Carbon, etapa que antecede a primeira emissão.
Esse histórico pesou na preparação para o TREES. Em 2025, o estado revisou as regras de repartição de benefícios do ISA Carbono. O Instituto de Mudanças Climáticas – IMC, fez consultas nas cinco regionais [26], com cerca de 1.800 participantes, tradução para línguas indígenas e apoio logístico a comunidades que chegaram a viajar três dias de barco. Um fórum de cerca de 150 delegados eleitos fechou a nova divisão, oficializada pelo Decreto nº 11.732/2025 [27]:
- 72% para os beneficiários diretos: 22% para povos indígenas, 26% para extrativistas e 24% para agricultores familiares e pequenos e médios produtores.
- 28% para políticas do estado: combate ao desmatamento ilegal, governança, gestão do SISA e de áreas públicas e unidades de conservação.
A revisão mostra a preocupação do Acre em cumprir as salvaguardas sociais exigidas pelo padrão antes de chegar ao mercado, um aprendizado acumulado em mais de uma década de ISA Carbono e ACS. A experiência de quem chegou primeiro ao mercado TREES deixa cinco lições para o estado.
- Integridade vem antes do preço. O TREES só emite créditos depois de verificar salvaguardas sociais, participação de povos indígenas e comunidades tradicionais e regras claras de repartição de benefícios. A Guiana destina 15% da receita às comunidades indígenas, e isso faz parte do que a torna confiável para compradores. O Acre já deu esse passo com a revisão de 2025.
- Segurança jurídica é condição para vender. A Lei nº 15.042/2024 veda a venda antecipada de créditos jurisdicionais, e o caso do Pará mostra que acordos com preço fixado antes da emissão podem ser questionados. Para o Acre, o caminho mais seguro é estruturar o programa, obter a emissão e só então negociar os créditos, com análise jurídica prévia de qualquer contrato e atenção à regulamentação do SBCE ainda em curso.
- O prêmio está no CORSIA. Os créditos usados pelas companhias aéreas valem de duas a três vezes o preço médio do REDD+ de projetos privados. Para acessar esse mercado, porém, o crédito precisa de autorização do país anfitrião e de ajuste correspondente nas contas nacionais de emissões, uma decisão que envolve o governo federal.
- O processo é longo e técnico. Da nota conceitual à primeira emissão passam-se anos, com custos de monitoramento, relatórios e verificação independente. A Costa Rica levou quase três anos entre a assinatura do acordo de venda e o primeiro crédito. Esses custos precisam ser planejados sem contar com receita antecipada da venda.
- O resultado é do território inteiro. No modelo jurisdicional, o crédito depende do desmatamento em todo o estado. Qualquer alta na derrubada reduz o volume a receber, o que liga diretamente a política de combate ao desmatamento à receita do programa.
O mercado TREES ainda é pequeno e concentrado, mas cresce rápido e paga mais do que a média do carbono florestal. Para estados com tradição em políticas de serviços ambientais, repartição de benefícios pactuada e instituições já estruturadas, como o Acre, a janela está aberta. Aproveitá-la depende de respeito ao marco legal do SBCE e coordenação entre estado, governo federal e comunidades.
Nota metodológica. Os volumes TREES vêm do registro público do ART, operado pela ICE GreenTrace, consultado até 27 de outubro de 2026. A consulta cobriu todos os lotes de créditos das 27 jurisdições cadastradas. Os preços não constam no registro e foram obtidos em anúncios oficiais e reportagens. Os dados do mercado voluntário de projetos privados vêm de relatórios de mercado (Climate Focus, OPIS, Fastmarkets e CRBN), com métodos distintos, e indicam ordem de grandeza. O registro do ART também abriga 2,3 milhões de créditos do fundo de carbono do Banco Mundial (FCPF), de Costa Rica, Côte d’Ivoire e República Democrática do Congo. Eles não seguem o padrão TREES e não entram nesta análise.
Referências
[1]: https://artredd.org/about-us/
[3]: https://greentrace.ice.com/art/credits
[5]: https://dpi.gov.gy/first-payment-from-hess-corporation-for-guyana-issued-carbon-credits/
[6]: https://caribois.org/2023/02/hess-corporation-inks-carbon-credit-deal-with-guyana/
[7]: https://www.iata.org/en/pressroom/2025-releases/2025-01-22-01/
[8]: https://engie-sem.com/pricing-phase-1-corsia-credits-what-to-expect-in-2026/
[9]: https://newsroom.gy/2026/03/18/guyana-sold-carbon-credits-to-19-airlines-under-lcds-framework/
[10]: https://guyanatimesgy.com/apple-buys-313m-worth-of-carbon-credits-from-guyana/
[12]: https://inewsguyana.com/guyana-earned-us353m-from-carbon-credit-sales-since-2022/
[13]: https://climatefocus.com/publications/carbon-market-2025-review-and-outlook/
[16]: https://crbn.credit/post/mid-2026-carbon-market-data-report
[19]: https://jaresourcehub.org/impact-stories/para-signs-180m-leaf-coalition-deal-first-in-brazil/
[22]: https://carbon-pulse.com/398775/
[23]: https://carbon-pulse.com/363320/?site=nbp






